A estrada nacional EN238 oferece-se, primeiro, panorâmica, para quem vem de Castelo Branco, para depois se embrenhar num denso pinhal, à medida que nos aproximamos de Oleiros. A viagem é, por si só, uma experiência que nos permite perceber a individualidade desta região. As pequenas aldeias brancas que se avistam do alto da Serra do Moradal (800m) deixam adivinhar mais vida do que este território aparenta à primeira vista. Mas, nada nos prepara para o que vamos encontrar na pequena aldeia da Amieira.
A poucos quilómetros antes de chegar a Oleiros, uma placa assinala a direção deste pequeno povoado. São precisos mais alguns quilómetros por uma estrada ladeada de arvoredo até que, num ponto alto, uma curva deixa perceber a crista da montanha de onde um pequeno aglomerado de casas brancas se destaca. Chegámos à Amieira. As três pessoas que encontramos desdobram-se em atenções para se assegurarem que encontramos o caminho para o Vale de Moses do “André”. “Não tem sinalização, mas siga por esta vereda abaixo, em direção ao rio que não se pode enganar”, asseguram.
O estreito caminho empedrado acompanha uma pendente íngreme que parece despenhar-se no fundo do vale. E, de repente, o conjunto de casas que compõe o Vale de Moses, ou apenas Moses (nome do local que lhe deu origem) impõe-se na paisagem, na mais fortuita das surpresas. Aninhado na encosta de um pronunciado vale encontrámos um delicioso retiro de yoga onde cabe o mundo inteiro.
Há quatro anos a funcionar como unidade de turismo, Vale de Moses é um espaço dedicado ao bem estar do corpo e da mente, um espaço de fuga e de reencontro connosco próprios, em especial para quem precisa descansar da fatigante rotina citadina.
Em Vale de Moses pode praticar-se yoga com uma equipa de professores que varia as abordagens e as técnicas, mas sempre com uma assinatura pessoal. Os dias querem-se calmos mas não inativos. Os vários trilhos que percorrem a propriedade e os terrenos envolventes convidam ao passeio de descoberta de novos espaços ao ar livre.
As casas, dispostas pela encosta completam-se com algumas tendas, num conceito glamping para quem prefere ficar ainda mais próximo da natureza. Chegue sozinho ou em grupo, a experiência de Vale de Moses inclui fazer novos amigos.
A estadia funciona em retiros semanais com calendários e professores /formadores previamente definidos que podem incluir avaliações de estados emocionais e físicos, massagens ou acupunctura. Tudo numa lógica de promover e recuperar o equilíbrio físico, psíquico e emocional onde o mantra pode ser “praticar”, “sarar”, “comer”, “repousar”.
O retiro resulta da recuperação de quatro casas de xisto pré-existentes usando apenas técnicas de construção e materiais tradicionais portugueses.
O conceito de estadia permite ainda a partilha de espaços de alojamento com outras pessoas, desde que do mesmo sexo. Para aqueles que preferem maior isolamento ou contacto com o espaço natural envolvente existem, espalhadas pela propriedade, três tendas e um enorme tipi, equipados com todo o conforto para que a noite ao ar livre seja ainda mais reparadora.
Em 2007, os proprietários de Vale de Moses, Andrew e Vonetta Winter, embarcavam numa viagem pela Europa que haveria de trazê-los à pequena aldeia da Amieira.
A vida em Londres tornara-se demasiado desinteressante, pelo que decidiram, junto com os seus dois filhos pequenos, procurar um espaço onde pudessem viver sem pressas, com mais ar livre e maior autossuficiência.
O destino manifestou-se por meio de um anúncio onde se vendia uma propriedade rural de nome “Moses” (um sítio onde houvera, em tempos, vários moinhos a que, popularmente, se atribuiu o plural de “mó”) e, curiosamente o nome do cão de companhia da família (“Moses”, inglês para “Moisés”).
A dificuldade em dominar o português ameaçava a descoberta da quinta, coberta de silvados e em completo abandono, quando o destino interveio novamente. Foi então que o golden retriever se lançou numa corrida, acompanhado pelos donos, só parando no sítio que todos procuravam.
Foi amor à primeira vista e, a partir daí, iniciou-se um árduo processo de recuperação das casas que acompanhou o desenrolar do sonho da família.
É com a simpatia que o carateriza desde que nos recebeu que Andrew Winter se confessa realizado com a escolha que fez. Quando lhe perguntamos se não sente falta da vida na grande cidade, confidencia-nos que tem mais contacto com o mundo todo agora, do que quando vivia em Londres. Os hóspedes chegam, maioritariamente do estrangeiro e partem amigos para a vida. Encontrou o mundo todo. Aqui!